Já faz um tempo que li um texto sobre ressaca na revista Galileu, fui lê-lo de novo esses dias e gostaria de compartilhar, porque eu concordo com muita coisa:

Ressaca: Ela não é uma doença, mas derruba a pessoa por horas, às vezes um dia inteiro. Ainda assim, quem gosta de beber deveria saber apreciar este momento, porque ele oferece uma oportunidade de recomeço.
A cabeça dói, qualquer barulho irrita, a sede é intensa, não dá vontade de comer. Difícil pensar numa pessoa adulta que nunca tenha tido ressaca uma vez na vida. O mal-estar generalizado que o excesso de bebida causa depois de uma noite de sono (geralmente ruim) não é exatamente resultado de uma doença, mas se parece bastante com isso. Para quem consome bebida alcoólica e exagera de vez em quando, ela é aquele momento em que se promete nunca mais repetir o erro — uma promessa tão sincera quanto as que fazemos nas viradas de ano. O que pouca gente se lembra é que a ressaca tem suas vantagens.
Em primeiro lugar, ela indica que a dose foi exagerada. Se não ficássemos mal, lidaríamos com o álcool como uma pessoa incapaz de sentir dor: sem nenhuma forma de saber quando passamos do ponto. Além disso, o momento de desconforto nos proporciona, de forma bastante concreta, uma lição que todos sabemos, mas insistimos em não nos lembrar. Toda fonte de satisfação, como o álcool (isso para quem gosta de consumi-lo, claro), traz consequências se perdermos a noção dos limites que nosso corpo é capaz de suportar.
Mas existe uma outra utilidade na ressaca. Muitas vezes ela é boa — isso mesmo. E, com mais frequência do que parece à primeira vista, as pessoas podem beber buscando exatamente o mal-estar do dia seguinte. Deve ser por isso que os escoceses dizem que sua verdadeira bebida típica não é o uísque, mas sim o Irn Bru, o remédio mais popular para curar ressaca no país. O motivo para procurarmos o mal-estar, de forma até proposital, é fácil de explicar. Em momentos de grande perda, seja a morte de uma pessoa querida, o fim de um relacionamento ou uma demissão, buscamos, de alguma forma, transformar o mal-estar psicológico em físico. Assim, conseguimos experimentá-lo em toda a sua intensidade. Ir ao fundo do poço. Quando a ressaca se vai, é como se ela levasse consigo ao menos parte daquele grande desconforto emocional que experimentamos junto com a dor de cabeça e o enjoo. Nem sempre funciona, mas é uma tentativa válida. Mais do que isso, é uma forma simbólica de buscar uma espécie de ressurreição curta.
O importante é: se você gosta de bebida e exagera de vez em quando, tente enxergar o dia seguinte sob uma nova perspectiva. Ele traz uma grande oportunidade de recuperação e, quem sabe, de um pequeno recomeço. Para isso, é preciso não se limitar ao remorso de ter bebido. É preciso aproveitar a sensação de lutar para se sentir melhor e ser bem-sucedido.
Sem mais.